o fim que não acaba (episódio 27)

Não sei ao certo onde começou e muito menos onde irá terminar. É uma falta de vocação para o fim ou obsessão pelo fim perfeito, sei lá. Fato é que para acabar uma simples conversa, uma bergamota comida embaixo da árvore, o banho quentinho do inverno, o sexo de tarde, o choro durante o filme, tudo é difícil. Nunca quero terminar. Faço mil vezes o ritual do fim. Durante a pandemia os começos e os fins acontecem diariamente no trajeto para a corrida infinita no parque todas as manhãs, na dança no corredor da casa que se repete até a exaustão, no percurso até o nenê – saboreado como torta de chocolate – nas segundas e quintas, na faxina em mínimos detalhes, nas lembranças vivas e sólidas tomando todos os meus espaços e que tanto me acariciam e são gentis comigo ou me matam de dor e perplexidade, nas brechas que se abrem e nunca mais fecham, na cara do menino no colo, relaxado e acordado, com aquele olho comprido que o sono dá, me ouvindo cantar as antigas marchinhas de carnaval enquanto cresce e aprecia as árvores e pássaros de sua sacada refúgio.

Nesses 154 dias tenho vivido as coisas intensamente, refletidas nas águas calmas da banheira velha ou no eterno subir e descer as escadas na aflição. Lembro o primeiro dia do isolamento, ainda verão, os primeiros mergulhos no bairro, nas paredes da casa ensolarada, na menina Clarissa contando os passos até a escola. Retorno às cantorias da madrugada nas noites de incursão ao velho Bom Fim, quando voltávamos no extinto ‘corujão’ do ônibus Glória e o motorista nos deixava na porta de casa. O primeiro homem, ainda no quartinho pequeno que havia sido possivelmente palco do primeiro homem das minhas irmãs e agora era o meu. Ainda sinto a força do amor grande, aquele que tomou a casa de assalto e escreveu os versos mais lindos no meu corpo, assim como vejo nas sombras a melancolia e a dor da presença tão potente da morte e do suspiro de vida que a persegue infinitamente. É um tal de entra e nunca mais sai aqui dentro da casa, dentro de mim. Não sinto o tédio dos normais nem a fome dos que tem fome, mas sinto todo o prazer dos que amam e toda a dor dos que perdem. O gosto de todas as bergamotas e tortas de chocolate, as angústias da espera, a expectativa da luz que terá o novo dia. Até os sonhos são sem fim e preciso escrevê-los em contos para que tenham um final digno, ou ao menos um caminho por onde andar. E a cada amanhecer lá vou eu mais uma vez dar fim a algo que já terminou e já teve seu primeiro e outros tantos fins. O que me faz pensar que eu sou a louca do fim e que vou passar o resto da vida tentando dar finais cinematográficos aos amores que entram em mim.

Foto da obra de Gelson Radaelli na parede da casa

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frestas (episódio 26)

Abro uma fresta e espio. Há bruma lá fora. Foi-se o tempo solar, o tempo de correr nas calçadas, o cheiro de grama fresca. Há bruma lá fora e não há nada aberto além do shopping. Dentro da casa há pessoas oferecendo coisas dia e noite: imagem, beleza, juventude, sexo, arte, felicidade, corpo, talento, calcinhas, todo o tipo de utensílios de cozinha, suporte pra celulares, pacotes de viagem para um incerto futuro. Vendem suas vidas perfeitas com parceiros, pais e filhos de novela e milagres pra rugas – como se a velhice já não fosse um milagre. Entram pelas frestas e arranjam meios atrativos de nos convencer que o mundo está feliz e que tudo voltará ao seu lugar. Quiçá até melhor que antes, com a cozinha modernizada, cara sem rugas, corpo escultural. Tomo coragem e abro a porta. Abro logo inteira. Não temo mais. Observo atentamente a rua, aperto o olhar pra ver através da bruma. Respiro a umidade que vem de fora, mas não sinto o cheiro bom de terra molhada dos dias vivos. Ponho o pé pra fora da soleira da porta. É possível que a araucária ainda esteja lá, ao lado da igreja, majestosa e imponente. A única coisa da rua que se mantém imponente. Coloco o outro pé e começo lentamente a andar. Conto os passos pra não me perder. Sei o número exato. Os braços vão à frente, tateando, procurando o que o olhar não me mostra. Imagino meus vizinhos também andando nas ruas, braços pra frente e pra cima sacolejando como bonecos de posto de gasolina. Fico sem saber se rio dessa cena ou se choro. Acho comoventes os bonecos de posto, lá sozinhos, sacolejando os braços nas alturas, precisando tanto de atenção e toda aquela gente indiferente nos seus carros com vidros fumês. Invisíveis é o que eles são. Sinto empatia.

Não se enxerga um palmo adiante do nariz. O mundo acabou. Enquanto conta seus mortos – centenas de milhares – a epidemia avança, o cerrado brasileiro pega fogo aniquilando parte da fauna já em extinção e os povos originários são atingidos em cheio pela doença e pela ganância do homem branco. A humanidade apodrece. É possível, vez ou outra, vislumbrar um resto de dias felizes, retalhos de carnaval, ecos de brincadeiras de crianças em balanços coloridos e até sentir uma espécie de esperança antes que tudo desapareça novamente na bruma por infinitos dias. Abro a porta. Abro logo inteira. Não temo mais. Entro na casa. Desligo o outro mundo, arranco os fios das tomadas pra não haver riscos. Fecho todas as frestas, não deixo uma brecha sequer. Me recosto, exausta, em paz, e imagino, apenas imagino, a janela lateral do quarto aberta, um cheiro de flor e o barulho das folhas da pitangueira ao vento.

  • Foto: Malu Baumgarten

vermelho balão (episódio 25)

O mundo é redondo. Redondinho. Gosto de imaginá-lo como um balão vermelho subindo sempre ao infinito. Vou junto, minha mão agarrada na cordinha do mundo. Quando eu era criança chorava no dia que os balões morriam por isso me agarro e vou junto. Não quero que ele morra. Não ainda. As formas redondas são perfeitas. Se desdobram em esferas que entram e saem do mesmo lugar ininterruptamente dando origem a outras que voltam para dentro daquela que as criou. Os pensamentos têm sido assim, como também os dias, as sensações, as alegrias e até as tristezas. Todas redondas, todas entrando e saindo de esferas perfeitas e formando novos mundos que saem a voar pelos céus, redondos como balões. Houve época em que os pensamentos circulares me pareciam obsessão e eu tentava, em vão, me livrar deles. Levei uma vida pra entender que tudo é círculo, tudo sai e entra novamente e que é pura ficção achar que é possível simplesmente seguir em frente vazia do mundo que ficou pra trás. Carrego comigo os meus círculos perfeitos e também os outros, vida dentro de vida, vida que viveu e se transformou e entrou novamente para ir junto, agarrada na cordinha do mundo. Sigo ereta. Os olhos mirando o horizonte, como se fios invisíveis e seus balões vermelhos puxassem minha cabeça, deixando tudo leve embaixo, flutuando sobre a casa, o bairro, a cidade, o Guaíba, até alcançar o azul.


(des)pedaço (episódio 24)

Ainda não sei se sou o menino ou o Tonho, se vou narrar a história ou seguir o destino. Mas sei que a roda do engenho vai girando, puxada pelos bois que andam em círculos até a exaustão.  A cana sendo colocada lá, o suco extraído, os bois andando sem parar, fazendo a roda girar. O sangue na camisa secou no varal e agora é matar ou morrer. Lembro de chorar – choramos tanto que nos abraçamos aos prantos na sala – quando vimos o filme que conta a história do menino e seu irmão, a tristeza daqueles dias de abril, despedaçados, que giravam, giravam e não saíam do lugar. O dia de matar ainda mais terrível que o dia de morrer. Às vezes os dias são assim, mesmo aqui na cidade, mesmo dentro da casa, com geladeira e comida, sem bois pra tocar, sem roda pra girar, sem trabalho pesado a fazer. Dentro desse dia sem fim, minha janela teve a visita do meu olhar, o pátio úmido, com cheiro de plantas e mofo, cinza e verde escuro. A janela pro quintal, dias de dentro.

Escolhi uma canção – das que tenho ouvido repetidamente até cansar – e um poema. Gravei uma, duas, três vezes, andando em círculos. Cantei à capela. Recitei o poema. Ouvi. Cantei de novo e de novo até ficar bom. Agora tenho uma canção e um poema em sequência dentro do meu celular. Ficou bonito. Tenho vídeos também. Danço com as músicas que descubro ou que chegam a mim, delicados presentes que trato de já usar porque sei o quanto é bonito agradecer o que se ganha. Coisas de dentro. Vejo e revejo a dança. Penso: nossa, como sou bonita dançando! E giro, giro, giro em volta do eixo pelos corredores da casa. Faz tanto tempo que estou aqui, girando, que confundo os dias que vivi e os que não vivi. Esses dias circulares que voltam sempre ao ponto de partida, o mesmo dia, rodando inúmeras vezes na sala do cinema o filme que me faz chorar. 


os dados da sorte ou Beckett estava errado (episódio 23)

Jogo os dados para cima. Erro. Preciso voltar seis casas. Jogo mais uma vez. Erro de novo. Agora tenho que ficar parada por duas jogadas. Os outros seguem no jogo. Fico pra trás. Minha vez. Erro. Volte ao início do jogo, diz a regra. Desisto. Saio do mundo. Mais de cem dias nesse jogo e não há acerto possível. Erro uma, duas, três vezes, uma infinidade de erros. Os outros erram. Erram mais, erram novamente. Desistimos todos. Não há acertos possíveis. Beckett estava errado. A cada erro, o erro fica pior. Estamos tensos na hora da nova rodada. Amanhã recomeço. A cidade recomeça, ainda que à deriva. O mundo tem nova chance. Mais uma vez voltamos ao início do tabuleiro. Todos em casa, na rua só os ‘com máscara’, sem parque, sem orla, sem comércio. Só quero ver. Viver pra ver.

Meu jogo também volta ao início.  Meu mundo. Andar no bairro, subir a rua dos mortos, olhar as casas, conferir se ainda há ursos panda de pelúcia nos varais e se haverá chuva pra eu finalmente levar meu guarda-chuva listrado pra dançar com ela. Estou sozinha no jogo agora. Guio meus passos na calçada. Vou contando, andando em ziguezague ou fazendo de conta que estou pulando sapata (que virou amarelinha não sei por que). Faço isso como que reafirmando que não sou um bicho de telas, de mundo virtual, de ondas eletromagnéticas. Conto passos na rua. Sou dessas. Imagino as crianças ainda lá, nas calçadas, as pessoas sentadas em suas cadeiras de praia na soleira da porta, olhando a vida passar. Quem sabe até uma pequena balbúrdia num boteco com mesinhas na rua. Quem sabe.

Volto ao jogo. Jogo os dados pra cima. Estou só. Não há viva alma comigo. Faço o possível e o impossível pra seguir jogando, mesmo que não tenha mais graça jogar, mesmo que eu já tenha decorado as jogadas e até aprendido onde posso roubar pra ganhar de mim. Jogo os dados da sorte e ouço baixinho a música que repete em um mantra: ‘mas o vento sacode a lona do circo amarela/ como é que você pode viver tão longe dela?’


trem do interior (episódio 22)

Ouço o barulho do trem e estou calma. Lá fora o sol brilha e a tarde é fria como nos velhos invernos, quando íamos aos parques comer bergamotas e elas tinham gosto de bergamotas tiradas da árvore, perfumadas, suculentas e doces. Na casa da minha amiga de infância tinha pé de bergamota. E tinha fogueira no São João pra gente pular e brincar, bandeirolas coloridas e música no quintal. Dia desses revivi esse Brasil junino e alegre e me emocionei com a live do Gilberto Gil, um artista essencial, que compôs Menina Goiaba e outras lindas canções. Ele me disse tanto que um dia o homenageei colocando seu nome no meu filho.

Estou toda de azul. Gosto de mim assim. Me visto de céu pra ver se consigo voar e ver a paisagem que passa rápida na janela do trem. Ele sacoleja e vou para um lado e para o outro, como é comum nos balanços de trem. Vejo campos largos, árvores solitárias arqueadas de vento, árvores em grupos – ah como eram bons os grupos de árvores conosco embaixo, olhando o céu pela teia das copas de folhas e galhos, com seus minúsculos olhinhos de sol aquecendo pedacinhos de nós. No horizonte, conjuntos de casas formam pequenas aldeias e há também as casas que resistem solitárias na imensidão. Penso nas pessoas sobre essa terra, ao largo da estrada onde passa o trem, e cantarolo a canção tão triste do Ednardo e do Fausto Nilo: ‘à boca da noite / dei com a tua beleza / não contava com o raio de sol / e a luz forte no lençol / que clareou tua face / que clareou tua face‘. Os rostos e suas máscaras customizadas, com florzinhas ou estampas e mensagens da moda. Não, hoje não quero pensar nas pessoas e suas máscaras, prefiro pensar no amor inventado, aquele que fica lá no alto, nos céus, vestido de azul, leve como uma poeira brilhante, com suas canções que sussurram no meu ouvido. Nesse amor que tudo pode, que entra casa adentro como uma ventania e deita comigo, me abraça, e me leva na doce viagem do trem que atravessa o interior.

  • Foto da Maíra Baumgarten com interferências minhas

a casa que espiava (episódio 21)

Há 50 anos eu estava sentada na janela da casa comemorando a conquista da Copa do Mundo. A mãe sempre gostou de futebol e eu fui a única das filhas que acolheu essa paixão. Era criança e lembro que todo o bairro ficou em festa. A configuração da rua era outra, com suas casas grandes e antigas, seus quintais cheios de árvores frutíferas e jardins. O bonde ainda passava em frente a casa, com seus barulhos peculiares e com pessoas com meio corpo pra fora no horário de pico. Dentro deles, os inesquecíveis bancos de madeira marrom, um virado de costas pro outro. Eu jamais sento de costas para o fluxo da rua e não sei como alguém pode andar de costas sem enjoar. Não lembro se fazia frio no inverno de 1970, mas lembro das pessoas com bandeirolas e de estar tomada por uma euforia gigante, criança que era.

A casa já era exatamente o que é hoje, porém mais jovem, assim como eu. Espiava a rua, observava uma casa derrubada aqui, outra ali, talvez com algum receio que ela própria pudesse ser derrubada, assim como eu. Jardins eram cobertos por lajotas e muros altos se erguiam onde antes havia murinhos baixos, com jovens sentados falando da vida. Um pequeno armazém virando um minimercado e depois um supermercado. Coisas do progresso e do dinheiro.

Não é de hoje que ela está viva. Quando criança eu tinha verdadeiro fascínio pelas histórias de casas vivas, com personagens que subiam escadas, portas que se entreabriam, perfumes que se atreviam a passar bem diante dos nossos narizes. Nunca escondi minhas tendências ao fantástico e às histórias de terror. Quando cresci, comecei a gostar ainda mais das casas velhas e das histórias que dão a dimensão do medo e seus limites, sempre bem demarcados. A epidemia se aproxima dos cem dias e, além das retrospectivas da Copa de 70 estampadas nos jornais locais, leio as notícias do colapso iminente das UTIs em Porto Alegre. O filme de terror está ao vivo e a cores em nosso quintal e no quintal de lajotas dos vizinhos e é bem diferente da tela do cinema ou da minha imaginação fértil. O medo vem em ondas e se propaga no espaço, acertando em cheio nossos sonhos e eu não gosto dele agora. Numa dessas tantas noites do isolamento apareceu no meu sonho um psicopata que, depois de dizimar a família, veio com tudo pra cima de mim. Me encolhi no capacho da entrada, no estreito corredor ao lado da porta da rua, com os braços sobre a cabeça e acordei com o machado entrando no meu crânio. Outro dia despertei fazendo um esforço sobre-humano pra gritar pela mãe, sem a mínima ideia do que estava me afligindo.  A sensação de ter a voz presa na garganta é muito incapacitante. Fiquei sufocada, suando na cama. E quando vem inadvertidamente um sonho bom, cheio de sensações e afeto, acordo antes do tempo, assim, do nada, e fico com cara de idiota olhando a escuridão.

Não há como não ser afetado com a pandemia e a situação do Brasil, assim, à deriva. São 50 mil pessoas mortas no país e mais de um milhão de infectados. As perspectivas pra essa semana são as piores, com hospitais lotados e tudo andando: a doença e o povo dividindo as ruas do centro, o comércio e a orla em dia de domingo. E estamos exaustos, inseguros, irritadíssimos com os ‘sem máscara’, chorões, apáticos e pobres. Eu pelo menos estou. O governo deve achar que os artistas estão tão imbuídos de criar sua arte e divulgá-la aos isolados que a nobreza do seu gesto os alimenta por completo. Corpo e alma.

Espiamos pra fora. A casa e eu. Vemos a mesma rua há 50 anos, embora os paralelepípedos de ontem estejam escondidos por uma camada de asfalto barato, que nos deixa visualizar um ou outro rebelde despontando no meio-fio. Estamos fincadas nessa terra e nossas paredes não são de concreto, pois ainda não se faziam casas e pessoas de concreto na época em que fomos criadas. Temos rachaduras, imperfeições, a pintura descascando aqui e ali. Vez ou outra até balançamos um pouco, mas seguimos vivas e na torcida pra (vi)ver muitas Copas do Mundo. Quiçá alguns carnavais.

*Arte na parede: Luiz Vargas *Foto de Luiz Filipe Varella


o dia do aniversário (episódio 20)

Nunca gostei muito dessas comemorações datadas, não combinam comigo. Desde criança gosto de fazer as coisas na hora que meu corpo pede, com meu próprio ritual, no tempo que a passagem do tempo que me dá e não um dia do ano, rígido, me apontando o dedo. Graças a essa característica pareço às vezes uma chata que não curte comemorar em grupo, receber e dar abraços, fazer festa no natal, ano novo, almoçar no dia das mães. Nada disso, pelo contrário: quero comemorar em grupos, dar abraços e distribuir beijos todos os dias da vida, se assim o meu corpo (e o dos outros) quiser, na hora que quiser. Hoje faço aniversário, no meio da pandemia, no topo da curva, e tudo que o meu corpo queria era dar e receber afetos. É um tempo duro para festas, um tempo de observar de longe, não sucumbir, seguir lutando daqui da trincheira, não morrer na via pública, se manter com o olhar em frente e a cabeça em pé. Um tempo de ser voyeur do próprio desejo. Tempos de espera doem muito em quem não tem tempo a esperar.

Na falta da minha vida lá fora, do meu envolvente trabalho na cultura, das danças, cantos e tambores agora sem olhares, sorrisos e carinhos, invento coisas novas e enjoo delas, geminiana que sou. Minha atual paixão é fotografar tudo o que vejo: detalhes, louças, quadros, plantas, pedaços de coisas, chão, varal, gato, nenê, escadas, janelas, corredores, céus e a mim mesma. Me fotografo muito, em todas as formas e estilos, em cada canto. Rastejo pela casa atrás de ângulos inusitados, visto o guarda-roupa inteiro, as saias de maracatu, os figurinos do bloco da laje, os vestidos, meus instrumentos musicais. Depois dispo o guarda-roupa inteiro também e vou fotografando e me divertindo – e às vezes me surpreendendo – a cada foto que finalizo. Me vejo bonita ali, dentro da minha casa refúgio, em fotos estilo vintage, drama, sobreposição ou sem filtro algum. Esses dias, numa dessas trips criativas, fiz essa foto com o robe branco, puro glamour. Achei a cara do aniversário na pandemia porque, afinal, hay que endurecerse pero sin perder la ternura (y la formosura) jamás.


abelhas, histórias e bolos (episódio 19)

Acordo às 3h da manhã do dia 76 com os barulhos de uma festa próxima a casa. Nada a estranhar pois a vida segue normal no meu bairro. Eu diria até sobrenatural em alguns dias. Mas nessa noite a festa era mais longe e da janela do quarto eu ouvia apenas um zum zum zum. Era como uma colmeia de abelhas, distante e organizada, seguindo os protocolos da diversão. Imaginei do recanto do meu edredon branco quentinho como estariam essas abelhas reproduzindo lá, em seu animado encontro sem noção no meio da pandemia, os rituais da sociedade, em rodas de conversas e joguinhos bobos e desnecessários que só sabem fazer desperdiçar o precioso tempo que nos escapa em forma de água e vida pelos dedos da mão. Ali, no zum zum zum das abelhas, está posta a mesa com todos os talheres ordenados conforme os pratos a serem servidos. As regras são claras e sempre há os dominantes e os dominados. Uma micro estrutura reproduzindo com perfeição a sociedade em que vivemos onde somos mais ou menos conforme nosso gênero, cor, idade ou classe social.

Nós seguimos aqui apartados da vida lá fora tentando ao menos fazer nosso papel. Alguns de nós seguimos lutando pra manter os empregos, um pouco de dignidade ou mesmo nossas profissões em extinção. Outros apenas tentam não sucumbir à depressão, à tristeza ou ao stress. A epidemia combinada com a caótica situação política brasileira vem nos tirando muito e nos bombardeando diariamente com o número assustador e crescente de mortos e com o medo sempre presente. Diante da dura realidade que se avizinha, nós, que não estamos na linha de frente do combate ao vírus, nos refugiamos como podemos. E mesmo que em nossa pequena sociedade de isolados também existam os que reproduzem a opressão com julgamentos e opiniões sobre como devemos nos comportar no isolamento, resistimos. Nos mantemos ocupados, organizamos as gavetas de dentro e de fora, inventamos obras e reformas em nossas casas, usamos e abusamos do humor quando possível e da imaginação sempre, aprendemos novas técnicas de fotografia com nossos aparelhinhos móveis, fazemos música, dançamos, inventamos novas e surpreendentes formas de comunicação em festas e eventos virtuais, sonhamos sonhos multicoloridos e escrevemos os mais variados tipos de histórias, sejam contos, romances, textos jornalísticos, crônicas da pandemia, histórias eróticas, poemas. 

Pessoa de ritos de passagem que sou, estabeleci uma forma de manter a sanidade nesses tempos estranhos: escolhi alguns poucos velhos e novos amigos com quem divido escritos, fotos, músicas, impressões. Mergulho em águas profundas a cada pequeno afeto que envio e quando os recebo de volta subo à tona e me deixo ficar na superfície por um longo tempo, curtindo o ondular da água sob meu corpo e o peculiar som que ela provoca em meus ouvidos. O sol esquenta minha cara e o céu azul brilha intenso lá no alto. E é aí que encontro a paz e a liberdade possível do isolamento.

Então serena e calma, vou tratar de fazer o bolo, ordem do dia da quarentena.


o diabo anda na medianeira (episódio 18)

Acordo e olho o relógio: 3h45. Ontem foi igual. Antes de ontem também. A casa vem me pregando peças com seus habitantes noturnos mais ativos que nunca. As fumacinhas – nome carinhoso que dou àquelas sombras que passam no canto do olho da gente – chegam a qualquer hora e não mais apenas na madrugada. Mas a pior entre todas essas criaturas é aquela presença que se infiltra lentamente na cama enquanto observo apavorada o volume das cobertas mudando de forma. Só me faltava agora no meio dessa insanidade que estamos vivendo ter gente não viva entre os meus lençóis. Chove há alguns dias e o outono mostra sua cara. A casa não fica atrás e decide que é hora de vazar algum esgoto que está por baixo dela e então minha calçada acorda de manhã tal qual uma reunião ministerial. Chamei o departamento de esgotos. Os homens chegaram, estacionaram o carro, olharam, caminharam até a esquina onde também há esgoto vazando e, no momento que entrei para fazer uma tarefa, sumiram. Evaporaram. Até achei que eles eram, na verdade, as fumacinhas da casa. Os serviços da cidade pioraram muito. Estamos jogados à própria sorte e eu não tenho a menor ideia de como me livrar das bocas abertas dos políticos em frente a casa.

O Brasil segue em busca da liderança na epidemia. Nossos mortos se multiplicam a cada dia, mas há shoppings abertos, há pessoas confraternizando nos parques em dias de sol, há botecos de calçada e festas em churrascarias. Aqui no bairro, temos tipos diversos de atividades: o churrasco dos vizinhos da casa de trás todo o domingo; a balada na cobertura de um prédio na avenida mais próxima, com música de academia e gritinhos de uhu que aumentam de volume conforme sobe o teor etílico; a galera nova que se mudou há pouco e põe as caixas de som pro lado de fora da porta; o pessoal do sertanejo da casa defronte, que reúne um povaréu com direito a salgadinhos, cerveja e dança na calçada. Todas essas festas e vizinhos não existiam antes da pandemia. E como se não bastasse, esses dias me surpreendi com uma gritaria de mulher na igreja internacional da graça de deus que fica quase em frente a casa – entre a presbiteriana chinesa, a assembleia de deus, a adventista, o centro espírita e, claro, a igreja católica, da qual ao menos gosto do sino. A mulher gritava muito, descontroladamente. Apurei o ouvido e ouvi que era uma espécie de exorcismo ou reza para afugentar o diabo. Algumas frases deixavam dúvida se ela estava realmente na igreja ou num balcão de fim de noite de um boteco lotado: mata minha sede! Mata minha sede!!! Tratei de correr pra dentro e fechar todas as portas e janelas. Vá que junto com o satanás, que deve andar aí pelas calçadas, esgotos e igrejas do bairro, ela acabasse afugentando também meus habitantes noturnos, companheiros de décadas e as únicas parcerias possíveis no isolamento. Melhor acender um incenso, sacudir os lençóis pra não ter surpresas noturnas e me manter em segurança e harmonia com as fumacinhas que habitam o lar.